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Estudo da UFRJ revela que vírus da dengue pode desencadear doenças neurológicas

Um estudo pioneiro realizado no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) da Uuniversidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revelou que o vírus da dengue pode acarretar transtornos neurológicos. De acordo com a idealizadora do trabalho, Marzia Puccioni Sohler, chefe do Laboratório de Líquido Cefalorraquidiano do HUCFF, é importante saber se uma doença neurológica é decorrente do vírus da dengue devido à determinação do prognóstico médico. " O diagnóstico precoce e de certeza evita tratamento e maior tempo de internação desnecessários na busca de outras possíveis causas para aquela enfermidade neurológica" , aponta ela.

Segundo Marzia, o comprometimento neurológico associado à dengue era considerado raro, de acordo com a literatura científica. "No sentido de averiguar essa informação, e considerando que os sorotipos prevalentes durante a epidemia de dengue de 2002 no Estado do Rio de Janeiro possuíam a capacidade de invadir o sistema nervoso, considerei a importância de se investigar a associação entre a doença neurológica e a infecção pela dengue na nossa população" , conta a pesquisadora.

Avaliação de pacientes

Na primeira fase da pesquisa foram estudados 13 pacientes com manifestações neurológicas em vigência de infecção aguda pela dengue: 54% apresentavam encefalite (comprometimento do encéfalo), 31% síndrome de Guillain Barrè (doença inflamatória que acomete as raízes nervosas) e 15% mielite (comprometimento da medula espinhal). "O exame de líquido cefalorraquidiano (líquido que reveste o sistema nervoso) foi anormal em 60% dos casos, evidenciando alterações inflamatórias", destaca Marzia.

A pesquisadora relata que os casos de mielite parecem estar relacionados à invasão direta do vírus, que ocasiona lesões inflamatórias na medula espinhal. Já a síndrome de Guillain-Barrè é precipitada, muitas vezes, por uma infecção viral. "Acredita-se que a infecção viral prévia possa induzir a produção de anticorpos contra a mielina (estrutura que protege a raiz nervosa), ou seja, seria uma reação imunoalérgica", explica.

E o mecanismo responsável pela encefalite, segundo Marzia, ainda necessita esclarecimentos. "Alguns autores consideram a possibilidade de ser decorrente de um processo imunoalérgico, enquanto outros atribuem à ação direta do vírus", observa.

De acordo com a especialista, existe um leque maior de transtornos neurológicos atribuídos à dengue; porém, são doenças que ocorrem mais raramente. "Enquanto os casos de encefalite, encefalopatia, hemorragia cerebromeníngea, mielite e meningite surgem durante a infecção aguda, as outras doenças aparecem no período pós-infeccioso, tais como encefalomielite disseminada aguda (ADEM), neuromielite óptica (NOM), síndrome de Guillain-Barrè e paralisia (mononeuropatia) dos nervos ulnar ou facial. A encefalite é, em geral, a manifestação neurológica mais frequente associada à dengue" , expõe.

Tratamento

Segundo a pesquisadora, o tratamento não é específico e depende do diagnóstico da doença neurológica. "Algumas manifestações neurológicas associadas à dengue são benignas, resultando em rápida recuperação espontânea. Isso ocorre na maioria dos casos de encefalite e em alguns casos de síndrome de Guillain-Barrè", indica. Nestas situações, os pacientes não costumam evoluir com sequelas.

Marzia demonstrou, em estudo prévio, que os casos de síndrome de Guillain-Barrè, quando associados à dengue, apresentam as mesmas características e prognóstico do que quando associados a outras doenças infecciosas. "Já os pacientes com mielite evoluem mais frequentemente com sequelas, tais como paraparesia (diminuição de força muscular nos membros inferiores) e retenção urinária" , relata a especialista.

Até o momento, não existe nenhuma vacina ou tratamento específico para prevenir a dengue ou as doenças neurológicas associadas a ela. "A única prevenção está em evitar as epidemias da dengue, através de medidas de controle dos vetores", informa a pesquisadora. Marzia Puccioni revelou que os próximos passos de seu trabalho consistem em aumentar a casuística, com a participação de novos centros de pesquisa da área.

Fonte: UFRJ

 

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