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Eficácia da vacina contra influenza em crianças saudáveis

Os Estados Unidos (EUA) recentemente passaram a recomendar a vacinação rotineira contra a influenza para todas as crianças com idades entre seis meses e cinco anos. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda a vacinação rotineira de crianças com idades entre seis meses e dois anos.

Segundo a Academia Americana de Pediatria (AAP), 10 a 40% das crianças saudáveis adoecem por influenza a cada ano, e cerca de 1% das infecções resultaram em hospitalização. O número de complicações do trato respiratório baixo decorrentes de influenza varia de 0,2% e 25% em crianças, especialmente pneumonia, laringite, otite e bronquiolite. As taxas demonstraram-se elevadas em crianças com menos de dois anos de idade, em comparação com as crianças maiores.

A AAP salienta também que, das 153 mortes de crianças devidas à influenza em 2003 e 2004, cerca de ⅔ ocorreram em menores de cinco anos e quase metade não tinha qualquer fator conhecido predisponente de doença grave (por exemplo, displasia broncopulmonar, asma, fibrose cística, diabetes, doença renal crônica, doença cardíaca crônica ou neoplasias). (American Academy of Pediatrics. Red Book: 2006, Report of the Committes on Infectious Diseases. 27 th. Ed. Elk Grove Village, IL. American Academy of Pediatrics; 2006).

Apesar dessa enfática recomendação, há dúvidas quanto à real eficácia da vacina em crianças. Assim, por exemplo, duas avaliações sistemáticas chegaram a resultados semelhantes (eficácia na prevenção de doença diagnosticada clinicamente variando de 28% a 38% e na prevenção de casos com confirmação laboratorial variando de 65% a 80%), mas delas foram tiradas conclusões contrastantes.

Um dos grupos (Lancet 2005; 365:773-80) expressou ceticismo quanto à adoção de vacinação universal de crianças como política de saúde pública e concluiu que “não foram encontradas evidências convincentes de que a vacina pode reduzir a mortalidade, internação hospitalar, complicações graves ou transmissão comunitária da influenza”.

O outro grupo (Vaccine 2005;23:2851-61) afirmou que, em termos de saúde pública, mesmo uma redução 30% no número de casos com influenza clinicamente evidente tem importante relevância”, mas evitou conclusões a respeito de menores de dois anos de idade porque “os dados disponíveis são demasiadamente escassos para permitir análises em grupos etários específicos.”

Para tentar lançar um pouco de luz sobre essa controvérsia, Manzoli e cols. (Ped Infect Dis J 2007; 26:97-106) levaram a efeito outra metanálise, na qual avaliaram possíveis razões para a variação da eficácia, bem como a qualidade metodológica dos estudos analisados.

A partir da triagem de 1501 artigos identificados na literatura, apenas 32 estudos preenchiam os rigorosos critérios estabelecidos pelos autores. Nas análises finais foram incluídos estudos randomizados que compararam vacina e placebo e nos quais pelo menos 70% dos participantes eram crianças e adolescentes saudáveis com menos de 18 anos de idade, e que continham dados suficientes para avaliar a eficácia vacinal para a prevenção de casos clinicamente confirmados de influenza e/ou (casos) com confirmação laboratorial de influenza e/ou otite média. Dezessete dos estudos foram realizados nos Estados Unidos, 12 na antiga União Soviética e três em outros países da Europa.

A eficácia vacinal na prevenção de casos clinicamente confirmados (36% no total, com intervalo de confiança (IC) 95% : 31-40%) variou substancialmente de acordo com a localização do estudo, sendo mais elevada nos estudos realizados fora da antiga União Soviética (61% versus 34%). Essa diferença não ocorreu nos casos com confirmação laboratorial (eficácia protetora de vacina: 67%, IC 95%: 51-78%) e em relação à otite média (eficácia protetora: 51%, IC 95%: 51-78%).

Não foi possível, pelo pequeno número de estudos, avaliar a eficácia vacinal em menores de dois anos de idade.

Manzoli e cols argumentam que a menor eficácia verificada nos estudos em que a avaliação de influenza foi apenas clínica deve-se ao fato que as casuísticas com confirmação clínica sempre incluem muitos casos diagnosticados erroneamente como influenza. A menor eficácia verificada nos estudos realizados na antiga União Soviética deve-se provavelmente ao tamanho da amostra, muito maior nos estudos soviéticas (média 20470 versus 268) o que certamente compromete a acurácia do diagnóstico clínico.

A conclusão de Manzoli e cols. é que a metanálise indica um relevante benefício da vacina contra a influenza na prevenção dos casos de doença confirmados clinicamente ou laboratorialmente e de otite média, em crianças com mais de dois anos de idade. Além disso, a eficácia tende a ser mais elevada nos estudos considerados como de melhor qualidade, o que sugere que a verdadeira eficácia vacinal pode ser maior que a sugerida pelo conjunto de dados. Acreditam, por isso, que a vacinação é uma adequada opção para a prevenção da influenza em crianças saudáveis.

* Pediatra, Professor Associado do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; Presidente da Comissão Permanente de Assessoramento em Imunizações da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo; Membro do Comitê Técnico Assessor de Imunizações do Ministério da Saúde).

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