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Por que vacinar as meninas contra o HPV tão cedo?

Meses antes da vacina quadrivalente contra o HPV ser licenciada pela FDA dos EUA, já existia a preocupação das lideranças em saúde pública quanto às possíveis resistências a essa promissora vacina para prevenção de câncer uterino, a segunda causa mais comum de morte por câncer em mulheres em âmbito mundial.

Dados nacionais demonstram que em nosso país morrem cerca de 7.000 mulheres anualmente por esse tipo de tumor.

As mulheres correm maior risco de doença grave causada pelo HPV. E, embora o pico de incidência seja entre 20 e 25 anos, os médicos alertam: a curva de crescimento da doença entre adolescentes preocupa bastante porque é ascendente.

O HPV é mais comum em jovens sexualmente ativos, e é tão prevalente que estima-se que 75-80% da população será infectada durante a vida, sendo que cerca de 50% dos casos novos acontecem nos três primeiros anos de atividade sexual.

As meninas têm iniciado a vida sexual cada vez mais cedo e costumam ter vários parceiros, não exigindo, muitas vezes, o uso de camisinha. Mesmo naquelas que fazem uso de preservativos, a proteção não é garantida pois a transmissão se dá pelo contato direto com a pele infectada, podendo haver transmissão em atividades sexuais mesmo sem penetração.

Dessa situação resulta que uma garota infectada correrá o risco de após alguns anos vir a se transformar em mais uma mulher vítima de câncer de colo de útero.

Estratégias de vacinação prévia demonstraram que a época ideal para administração de qualquer vacina é antes da exposição à infecção. As vacinas anti-HPV deverão ser mais efetivas quando administradas antes do início da atividade sexual, e as campanhas de vacinação deverão ter como público-alvo adolescentes e pré-adolescentes a partir dos nove anos de idade.

Outra razão para vacinação nessa faixa etária é a excelente resposta imunológica verificada em crianças e adolescentes de 10 a 15 anos.

Segundo as pesquisas, as principais beneficiadas serão as meninas vacinadas antes da fase sexualmente ativa. Porém, essa proposta vem despertando discussões com organizações religiosas e nacionais, que alegam que essa conduta estimulará o início precoce da atividade sexual, induzindo à promiscuidade.

Há entidades religiosas americanas que pregam abstinência sexual total pré matrimônio e casamento monogâmico como única maneira de prevenção das doenças sexualmente transmissíveis (DST), e posicionam-se terminantemente contra o uso desta vacina.

Existem grupos que acham que as meninas possam se sentir desobrigadas do cuidado com a sua saúde e a de seu parceiro, estimulando atividade sexual desprotegida. Temem ainda que a vacina possa afetar negativamente estratégias de conscientização quanto aos cuidados para uma prática sexual segura. Apesar de todos esses grupos religiosos oponentes, nos Estados Unidos o ACIP e a Academia Americana de Pediatria indicam a vacinação de adolescentes aos 11-12 anos.

Um questionamento que poderia colaborar como argumento contra a vacinação de meninas tão jovens, já a partir dos nove anos de idade era a incerteza da duração da proteção. Embora não se possa afirmar categoricamente o número exato de anos que se obtêm proteção após as três doses do esquema proposto, já está provado a existência de proteção a longo prazo.

Num subgrupo de participantes dos estudos que levaram ao licenciamento da vacina, foi feita uma dose de reforço após cinco anos. Todas as participantes tiveram aumento dos títulos anticórpicos após esse reforço (“booster”), provando assim a existência de memória imunológica podendo-se concluir que a proteção será de longa duração.
No Brasil, a vacina está licenciada neste momento apenas para meninas e mulheres de 9 a 26 anos.

Não existe ainda um posicionamento oficial do Ministério de Saúde quanto à entrada dessa vacina no Programa Nacional de Imunizações. Outras questões em pauta de discussão além da faixa etária a ser priorizada, envolvem o custo dessa vacinação para o governo, e a vacinação também dos adolescentes meninos quando a vacina for licenciada também para o sexo masculino.

Devido a pouca idade do público-alvo para a vacinação, os médicos e pais terão enorme importância na tomada de decisões. Em levantamento conduzido na cidade de São Paulo pelo laboratório Merck, Sharp & Dohme foram ouvidas meninas de 13 a 24 anos, e mães de garotas dessa mesma faixa etária habitantes da cidade de São Paulo.

Verificou-se que diálogo entre mães e filhas sobre sexo ainda é precário. As principais vias de informação sobre sexualidade para adolescentes são a escola, ginecologistas e revistas femininas. O conhecimento sobre o vírus HPV e suas conseqüências foi restrito às meninas e mulheres que tem amigas que já tiveram a doença.

De um modo geral, as adolescentes têm pouca informação sobre o HPV e o assunto está distante da sua realidade. Nesse levantamento, para as entrevistadas (tanto mães como filhas) as DST não são uma preocupação pois elas não se consideram pertencentes ao grupo de risco. Para elas, as DST estão associadas principalmente com a AIDS e por isso não se preocupavam com o contágio pelo HPV.

Por todas essas questões abordadas, acreditamos que fabricantes, imprensa, profissionais e autoridades de saúde devam estar muito conscientes de suas responsabilidades. É imprescindível esclarecer sob quais condições a vacina anti-HPV pode se tornar  um mecanismo eficaz de prevenção, para não gerar uma expectativa irreal de solução do problema e desmobilizar a sociedade e seus agentes com relação às políticas de prevenção que vêm sendo realizadas.

De qualquer forma, a vacina contra o HPV é uma das esperanças para o futuro e a proposta do programa de vacinação deverá ser clara, concisa e com mensagem educativa para o público leigo bem como para os profissionais da saúde.
 

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