Por: Dra. Mônica Levi

O Ministério da Saúde anunciou dia 09/01/2018 que oficialmente adotará o fracionamento de doses da vacina febre amarela em três estados: São Paulo, iniciando campanha em 25/01/2018 e em seguida, dia 19/02, nos estados da Bahia e Rio de Janeiro, com a meta de vacinar 19,7 milhões de pessoas em 76 municípios.A campanha de vacinação em massa utilizará uma prática mista de dose fracionada e padrão, para diferentes populações alvo.

Essa medida é recomendada pela Organização Pan-Americana da Saúde/Organização
Mundial da Saúde (OPAS/OMS) como uma estratégia válida de imunização que pode ser adotada em casos de emergência, quando há necessidade de se vacinar um número elevado de pessoas em curto prazo de tempo, em áreas populosas com risco de expansão da doença, não sendo disponível quantidade de vacina suficiente para a cobertura necessária. No entanto, não é medida que visa substituir as práticas habituais de vacinação rotineira, que continuarão acontecendo no país com dose-padrão.

Ressalta-se que a vacinação na rede privada é feita com a vacina produzida pelo laboratório Sanofi (Stamaril®), mantendo-se sempre a dosagem padrão de 0,5ml.

A OPAS/OMS reitera que a medida mais importante para prevenção da febre amarela é a vacinação. Quem reside ou se desloca para áreas de risco deve ser vacinado, respeitando-se as contraindicações e situações de precaução desta vacina, além de usar métodos de barreira contra picadas de mosquitos. Uma dose padrão de vacina é suficiente para garantir imunidade e proteção ao longo de toda vida para a grande maioria dos indivíduos vacinados.

Verificou-se em estudos que avaliaram imunogenicidade ( i.é; formação de anticorpos ), que uma dose menor da vacina (1/5 a 1/2 da dose padrão) pode fornecer proteção contra a doença por pelo menos 12 meses e que esses anticorpos tem a duração de pelo menos 8/9 anos com a vacina do laboratório Biomanguinhos (FIOCRUZ), vacina essa usada em todo o Brasil pelo Ministério da Saúde. A potência da dose fracionada desta vacina é seguramente bastante superior às doses mínimas exigidas pela OMS. Não há dados publicados suficientes para demonstrar que doses mais baixas confiram proteção em longo prazo, sendo esse aspecto ainda desconhecido e em investigação.  Estudos em andamento continuarão a avaliar a persistência desta resposta imune.

Crianças, pacientes imunodeficientes e gestantes foram excluídos dessas avaliações, razão pela qual o Brasil manterá na campanha que em breve se inicia, a dose de 0,5 ml para menores de 2 anos, portadores de imunodeficiências e gestantes. Nesses dois últimos grupos, a vacina será aplicada somente após criteriosa avaliação individual, para maior segurança dessas pessoas a serem eventualmente vacinadas.

Para emissão do certificado internacional de vacinação ou profilaxia(CIVP), documento exigido pelo governo de diversos países paraaentrada de viajantes provenientes de países endêmicos de febre amarela, a dose fracionada não será aceita. Portanto, os viajantes internacionais que se vacinarem na rede pública devem apresentar documento que comprove viagem ao destino que exige o CIVP para entrada no país, para que recebam a dose de 0,5 ml durante a campanha.

Em 2016, a República Democrática do Congo adotou a estratégia de fracionamento de doses, sendo que 7,8 milhões de pessoas puderam ser imunizadas. Essa iniciativa teve êxito em interromper a epidemia que assolava o país. Espera-se assim, que a estratégia de fracionar doses possibilite a grande ampliação da população a ser imunizada e possa combater o surto atual que o Brasil está enfrentando, com potencial risco do ciclo urbano da febre amarela em algumas regiões do país. A opção pelo fracionamento, neste momento, é imperativa frente à possibilidade de expansão da febre amarela silvestre para áreas urbanas de cidades populosas,que exige um quantitativo de vacina acima da capacidade de disponibilização em curto prazo.

Esse plano estratégico que está sendo adotado neste momento no Brasil foi elaborado com a participação de representantes do Ministério da Saúde, da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), Da OMS e Centro de Controle de Doenças e Prevenção dos Estados Unidos (CDC), e aprovado pelo CTAI (Comitê Técnico Assessor em Imunizações) e especialistas.

REFERÊNCIAS

  1. Campi-azevedo AC, Estevam PDA, Coelho-dos-reis JG, Peruhype-magalhães V, Villela-rezende G, Quaresma PF, et al. Subdoses of 17DD yellow fever vaccine elicit equivalent virological/immunological kinetics timeline. BMC Infect Dis 2014; 14: 391.
  1. Hickling J, Jones R. Yellow fever vaccination: the potential of dose-sparing to increase vaccine supply and availability. Seattle, WA: PATH, 2013:118
  1. Martins RM, Maia MDLS, Farias RHG, Camacho LAB, Freire MS, Galler R, et al. A double blind, randomized clinical trial of immunogenicity and safety on a dose-response study 17DD yellow fever vaccine. Human Vaccines & Immunotherapeutics 2013; 9: 879–88
  1. Yellow fever fractional dose. WHO- paper _ SAGE- 20 July 2016. pdf.

Links

http://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5575:brasil-anuncia-fracionamento-de-doses-de-vacina-contra-febre-amarela-em-tres-estados&Itemid=820